Em frente à minha casa havia um lago. Éramos apenas três num casebre secular, milhas e milhas distante da cidade. Era gigantesco. Lembro-me de ir ao lago quando estava bravo ou feliz, para lhe arremessar uma pedra ou entregar o destino d’um barquinho de papel em suas mãos. O lago era lindo. Águas azuis, peixes de todos os tipos, com um enorme colorido ao seu redor. Sim, eu amava o lago.
Lembro-me de não poder vê-lo da janela do meu imenso quarto, que mal me cabia de tantos brinquedos, eu tinha que passar por dentro da casa e conseguir um feito raro, não acordar minha mãe com meus delicados passos. Meus pais não iam ao lago, viviam afogados no trabalho e brigando dentro do quarto. Eles juravam que eu estava dormindo. Mas não, eu tinha aproveitado para ir até o lago.
Um dia me olhava no espelho pela manhã quando algo áspero passou em minha mão quando a direcionei ao meu queixo. Eram pelos estranhos saindo da ponta do meu queixo e entre minha boca e meu nariz. Minha mãe percebeu a minha reação e me deu os parabéns, confesso que não entendi. Passamos o dia na cidade; a viajem tinha sido mais rápida do que das outras vezes.
Esperei eles dormirem, e finalmente consegui dribla-los; não sei se estavam mais velhos ou se eu estava mais esperto. Fui falar com o lago sobre os pelos. Ele estava menor, as águas estavam barrentas e eu não conseguia mais me ver durante a noite. Dormi preocupado. O tempo passou, e o lago se tornou indiferente. E não havia mais peixes. Até que um dia acordo mais cedo do que nunca com os gritos desesperados de minha mãe. Desço correndo as escadas. Meu pai estava morto, se foi durante aquela noite. No outro dia o sepultamos, juntos com alguns amigos de cerca. Naquela noite não fui ver o lago, tive que aparar as lágrimas da minha mãe.
Acordei com algo grande no meu lado na cama, era uma mala enorme. Minha mãe já me esperava acordada e mandou que eu me apreçasse, iríamos conhecer a minha avó. Chovia muito quando tínhamos que sair. Corremos em meio a chuva forte em direção à charrete. Quando me dei conta já estava fora do sítio. E pela primeira vez saí de casa sem ver o lago. Numa tentativa desesperada tentei vê-lo olhando pra trás, mas o vidro da charrete estava completamente embaçado.
Passaram-se vinte anos até então, nunca mais voltaríamos para o sítio. Até que em uma das minhas férias pedi o endereço à minha mãe, e fui até o lago.
O sítio não era mas longe da cidade. Ninguém morava lá. Estava coberto pelo mato. Ainda me ousei a arrombar a porta e rever o casarão. Que na verdade nunca havia sido grande. Havia apenas a cozinha, a sala de estar e o quarto dos meus pais, e num piso um pouco mais alto, o meu quarto. Pequeno e mal ventilado. Já estava na hora de ver o lago. Saí do casebre, andei uns cem metros e nada do lago. Não havia nada, apenas um círculo sem mato em meio a uns incômodos pés de urtiga. Voltei para casa.
Minha mãe estava no hospital, entre a vida e a morte. Fumava muito desde os doze anos, estava com quase todo o corpo atingido por um câncer. Ninguém sabia de nada. Numa tentativa de deixá-la feliz, contei sobre o meu dia. Mas disse que não havia encontrado o lago. Ela, para o meu espanto, abriu os olhos e falou:
- Lago? Que lago?- franzindo o cenho.
- O lago de frente à nossa antiga casa. – respondi soberbo.
- Eu não me lembro de lago algum. – insistiu ela.
- Aquele lago imenso que ficava depois da jaqueira, mãe!– expliquei.
- Ah! sim! – respondeu ela para o meu alívio. – Nunca houve um lago ali. Era apenas uma poça.