quinta-feira, 9 de junho de 2011

Duas minhas

Aquele senhor que vendia flores, uma vez fez a gentileza de me dar duas.
Fiquei mudo, não consegui agradecer.
Guardei.
Eram idênticas a primeira vista.
Mas quando as olhei pela segunda vez, já conseguia distingui-las.
Cada uma com um ar de amor e de beleza. Com rigidez, mas com um tanto de fraquezas.
Com fé em tudo, mas cheias de incertezas.
As pus em um jarro, que espero nunca quebrar.
O senhor se apresentou como Deus.
Nomeei uma de Larissa, a outra apenas de Vani.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ai se sesse - Zé da Luz


Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse!

Sobre o Tempo


É remédio, é dinheiro.
É curto, é muito, é inteiro.
É o tempo que nos cega.
Nunca é de se perdê-lo, mas também é de seu apreço.
Não tem peso, nem sombra, nem cara.
Mas você está apressado, eu vejo pela sua cara!

De tão grande é a felicidade de perde-lo de noção.
De repente, é hora! Acabou.
É hora de ir embora.
O tempo passou.
E vai continuar apressando, aliviando, marcando, e sendo perdido.
Continuaremos correndo, gastando, ganhando, separando... o tempo.
Um vicioso ciclo de gerúndios.

Hoje criamos a mais nova versão de nós mesmos.
Ampliada, corrida, e melhorada. O eu mais sofisticado.
Então quer dizer que o mais velho de nós ficou no passado?

Tempo é segredo, senhor de rugas e marcas.
De tantas mágoas abstratas, nos causa medo.

Quanto mistério, para algo que nem existe.

Sobre as árvores


Se todas as árvores sucumbissem aos ventos do outono, não teriam a primavera.
Não gozariam de tanta vida.
Apenas cairiam, se desmanchariam, virariam pó. Em seguida, seriam nada.
Se não fossem suas raízes, outrora tão bem guardadas, tão limpas, tão cuidadas; elas cairiam.
Mesmo que seus galhos fossem leves, e os ventos fracos, ainda assim, cairiam.
Se não houver esperança dentro de uma árvore, jamais conheceremos o gosto da sua fruta.
O cheiro da sua flor.
Jamais conheceríamos o conforto da sua sombra.
Jamais saberíamos até onde se pode ver do seu topo.
Se nada der certo, subo em uma, bem longe daqui, e fico por lá.
Até a próxima era.
Por que se todas as árvores sucumbissem aos ventos do outono, não teriam a primavera.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O Lago

Em frente à minha casa havia um lago. Éramos apenas três num casebre secular, milhas e milhas distante da cidade. Era gigantesco. Lembro-me de ir ao lago quando estava bravo ou feliz, para lhe arremessar uma pedra ou entregar o destino d’um barquinho de papel em suas mãos. O lago era lindo. Águas azuis, peixes de todos os tipos, com um enorme colorido ao seu redor. Sim, eu amava o lago.

Lembro-me de não poder vê-lo da janela do meu imenso quarto, que mal me cabia de tantos brinquedos, eu tinha que passar por dentro da casa e conseguir um feito raro, não acordar minha mãe com meus delicados passos. Meus pais não iam ao lago, viviam afogados no trabalho e brigando dentro do quarto. Eles juravam que eu estava dormindo. Mas não, eu tinha aproveitado para ir até o lago.

Um dia me olhava no espelho pela manhã quando algo áspero passou em minha mão quando a direcionei ao meu queixo. Eram pelos estranhos saindo da ponta do meu queixo e entre minha boca e meu nariz. Minha mãe percebeu a minha reação e me deu os parabéns, confesso que não entendi. Passamos o dia na cidade; a viajem tinha sido mais rápida do que das outras vezes.

Esperei eles dormirem, e finalmente consegui dribla-los; não sei se estavam mais velhos ou se eu estava mais esperto. Fui falar com o lago sobre os pelos. Ele estava menor, as águas estavam barrentas e eu não conseguia mais me ver durante a noite. Dormi preocupado. O tempo passou, e o lago se tornou indiferente. E não havia mais peixes. Até que um dia acordo mais cedo do que nunca com os gritos desesperados de minha mãe. Desço correndo as escadas. Meu pai estava morto, se foi durante aquela noite. No outro dia o sepultamos, juntos com alguns amigos de cerca. Naquela noite não fui ver o lago, tive que aparar as lágrimas da minha mãe.

Acordei com algo grande no meu lado na cama, era uma mala enorme. Minha mãe já me esperava acordada e mandou que eu me apreçasse, iríamos conhecer a minha avó. Chovia muito quando tínhamos que sair. Corremos em meio a chuva forte em direção à charrete. Quando me dei conta já estava fora do sítio. E pela primeira vez saí de casa sem ver o lago. Numa tentativa desesperada tentei vê-lo olhando pra trás, mas o vidro da charrete estava completamente embaçado.

Passaram-se vinte anos até então, nunca mais voltaríamos para o sítio. Até que em uma das minhas férias pedi o endereço à minha mãe, e fui até o lago.

O sítio não era mas longe da cidade. Ninguém morava lá. Estava coberto pelo mato. Ainda me ousei a arrombar a porta e rever o casarão. Que na verdade nunca havia sido grande. Havia apenas a cozinha, a sala de estar e o quarto dos meus pais, e num piso um pouco mais alto, o meu quarto. Pequeno e mal ventilado. Já estava na hora de ver o lago. Saí do casebre, andei uns cem metros e nada do lago. Não havia nada, apenas um círculo sem mato em meio a uns incômodos pés de urtiga. Voltei para casa.

Minha mãe estava no hospital, entre a vida e a morte. Fumava muito desde os doze anos, estava com quase todo o corpo atingido por um câncer. Ninguém sabia de nada. Numa tentativa de deixá-la feliz, contei sobre o meu dia. Mas disse que não havia encontrado o lago. Ela, para o meu espanto, abriu os olhos e falou:
- Lago? Que lago?- franzindo o cenho.
- O lago de frente à nossa antiga casa. – respondi soberbo.
- Eu não me lembro de lago algum. – insistiu ela.
- Aquele lago imenso que ficava depois da jaqueira, mãe!– expliquei.
- Ah! sim! – respondeu ela para o meu alívio. – Nunca houve um lago ali. Era apenas uma poça.